
Camila é diarista, mãe do Pedro, de dez anos, e da Julia, de dois.
Faz dois anos que ela carrega essa casa sozinha.
O pai foi embora numa madrugada, quando a Julia tinha três meses. Disse que não dava conta de um menino que não fala e uma bebê que não anda. Nunca mais mandou um real.
Quero contribuirPedro tem autismo severo. Não fala. Passa horas balançando no canto do quarto, e só um calmante acalma ele. Sem isso, ele não dorme, se bate, chora de um jeito que nem a mãe alcança.

Julia nasceu sem as duas pernas. Os especialistas disseram que enquanto o corpo tá aprendendo agora, dá pra ela crescer andando e nem lembrar que um dia foi diferente. Se esperar demais, não tem mais volta, e ela não consegue mais andar.
A prótese existe. Custa mais do que a Camila junta em muitos meses de faxina. E ela cresce, então tem que trocar de tempo em tempo. O nome tá na fila, mas a fila é longa demais pra idade que a Julia tem agora.

Todo mês a mesma conta: aluguel, comida, calmante do Pedro. Se sobra pra prótese, falta o calmante. Se compra o calmante, a Julia continua no chão.
Camila nunca pediu nada pra ninguém. Tá pedindo agora porque não consegue escolher entre um filho ou outro.
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